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Você já parou para pensar no poder que as histórias têm de moldar o nosso futuro? A historiadora Jill Lepore, uma das vozes mais respeitadas quando o assunto é o impacto da tecnologia na sociedade, está soando o alarme. Em uma entrevista recente ao podcast Equity, ela apontou algo que muita gente não percebe: o Vale do Silício está lendo ficção científica do jeito errado – e isso pode estar minando a democracia.
Para Lepore, líderes como Elon Musk e outros visionários do setor pegam obras como 1984, de George Orwell, e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e as interpretam como se fossem manuais de inovação. Só que esses livros, na verdade, são sérios alertas contra tiranias apoiadas por tecnologia. Quando Orwell descreveu um estado que vigia cada movimento dos cidadãos, ele não estava dando ideias para construir um sistema de vigilância perfeito – estava gritando: “Cuidado!”. Mas o Vale do Silício parece ouvir o oposto: “Vamos criar isso mesmo, mas com algoritmos bonitinhos”.
Essa distorção tem consequências reais. Projetos que prometem substituir processos democráticos por sistemas automatizados – como plataformas que decidem o que você vê, o que pensa e até como vota – estão ganhando força. Em vez de usar a tecnologia para fortalecer a participação cidadã, essas empresas concentram poder em poucas mãos. O resultado? Uma ilusão de liberdade, enquanto, na prática, as decisões são tomadas por máquinas e seus donos.
Lepore não está falando de um futuro distante. Hoje mesmo, você pode estar sendo manipulado por um algoritmo que aprendeu seus gostos, medos e desejos. A ficção científica sempre nos avisou: tome cuidado com o poder sem controle. Mas, em vez de ouvir o aviso, a indústria tech o transformou em um roteiro de negócios. E isso, segundo a historiadora, enfraquece a base da nossa vida em sociedade: a ideia de que as pessoas comuns devem ter voz nas decisões que afetam suas vidas.
O que isso significa para o futuro?
A provocação que fica é: será que estamos repetindo os erros que a literatura nos alertou? Se os líderes da tecnologia continuarem lendo essas obras como manuais de inovação, em vez de como críticas sociais, estamos caminhando para uma distopia disfarçada de progresso. Uma distopia onde a escolha é uma ilusão, porque tudo já foi decidido por um sistema que ninguém entende direito.
A saída, sugere Lepore, é simples, mas difícil: precisamos aprender a ler a ficção científica de forma crítica. Não como um cardápio de possibilidades, mas como um espelho do que não queremos nos tornar. A tecnologia pode – e deve – servir à democracia, não o contrário. Mas, para isso, é preciso que a sociedade participe ativamente, que as pessoas exijam transparência e que os criadores de tecnologia abracem uma postura mais humilde.
Afinal, o futuro não é uma história que já está escrita. Ele é construído pelas escolhas que fazemos agora. E, se a ficção científica nos ensina algo, é que sempre há tempo para mudar de rota – desde que a gente pare de confundir o mapa do tesouro com o manual do vilão.
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