Fim do monopólio do inglês: IA finalmente entende uma língua do Sul Global
Você já tentou ditar uma mensagem de voz em português e o celular entendeu tudo
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Você já tentou ditar uma mensagem de voz em português e o celular entendeu tudo errado? Imagine agora tentar fazer isso em suaíli, hindi ou bengali. Pois é: até muito recentemente, os sistemas de reconhecimento de fala (ASR, na sigla em inglês) simplesmente ignoravam a maior parte das línguas faladas no chamado Sul Global — países da África, Ásia e América Latina. Mas isso está mudando.
O Open ASR Leaderboard, uma espécie de ranking público que compara a precisão de diferentes modelos de inteligência artificial na transcrição de áudio para texto, acaba de incluir pela primeira vez uma língua do Sul Global. A novidade foi anunciada pela equipe por trás do leaderboard, e representa um passo importante para tornar a tecnologia de voz mais democrática.
Mas o que isso significa na prática para você, que talvez nunca tenha ouvido falar desse leaderboard? Vamos traduzir.
Pense num campeonato de corrida, mas em vez de atletas, competem programas de computador que transformam fala em texto. O Open ASR Leaderboard testa esses programas em diversos idiomas, medindo quantos erros eles cometem ao transcrever áudios. Até agora, o ranking era dominado por línguas como inglês, mandarim, espanhol e francês — todas faladas principalmente por países ricos ou com forte presença digital.
A inclusão de uma língua do Sul Global sinaliza que os desenvolvedores de inteligência artificial estão finalmente olhando para os 80% da população mundial que não fala inglês como primeira língua. E mais: que esses sistemas estão ficando bons o suficiente para serem úteis no dia a dia de quem nunca usou um assistente de voz porque ele simplesmente não entendia o sotaque.
Você pode não falar a língua recém-adicionada (provavelmente suaíli, mas o anúncio não especificou qual — fique atento às próximas atualizações), mas o movimento tem efeito cascata. Veja como:
Pense num agricultor no Quênia que quer saber a previsão do tempo pelo celular. Se o sistema entende suaíli com precisão, ele não precisa digitar nada. Basta falar. Agora imagine esse mesmo agricultor usando um app de saúde que transcreve os sintomas dele — isso salva vidas.
Mas será que incluir uma língua no leaderboard é suficiente? Não. O ranking mede apenas a precisão, não o acesso. De nada adianta ter um modelo perfeito se ele só roda em servidores caros ou exige internet de alta velocidade. A verdadeira revolução acontecerá quando esses modelos forem leves o suficiente para rodar em celulares básicos, que são a realidade de grande parte do Sul Global.
Portanto, a pergunta que fica é: estamos prontos para uma inteligência artificial que entende realmente todo mundo, inclusive quem fala uma língua minoritária ou tem sotaque carregado? O primeiro passo foi dado. Falta a corrida inteira.
No seu dia a dia, você pode começar a testar: use o ditado por voz no WhatsApp ou no Google Docs e veja se ele entende melhor do que há um ano. Se ainda errar, lembre-se que a batalha por mais línguas está só no começo. E se você é desenvolvedor, que tal contribuir com dados na sua língua materna? Quanto mais exemplos, mais rápido a fala de todos será respeitada.
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